A Importância dos Limites na Criança





Fátima Poucochinho



Saber dizer “não”é um dos aspectos mais importantes e saudáveis na educação da criança.





Uma das maiores dificuldades na educação de uma criança consiste na tarefa de saber dosar amor e permissividade, com limites e autoridade.

Todos os pais têm consciência da importância de impor limites, mas o fato de saber disso não é suficiente para fazer desta uma tarefa fácil.

É importante analisar como a noção do “proibido” se vai construindo ao longo do desenvolvimento infantil para compreender melhor o comportamento da criança.

Até o fim do primeiro ano de vida, a criança obedece ao princípio do prazer, procurando fazer apenas o que lhe dá satisfação e, fugindo do que é vivido como algo “desprazeroso”. A criança age por impulso instintivo e este é o seu primeiro sistema de funcionamento mental. Nesta fase a criança tenta fazer tudo o que lhe vem à mente: deseja o que vê, imita o que fazem ao seu redor e é “super” curiosa em relação a tudo. A necessidade de tocar, apalpar, mexer, demonstrar, destruir, desfazer e tentar reconstruir objetos são atividades importantíssimas e fazem parte de sua forma de entrar em contato com o mundo externo.

A partir dos 18 meses, a criança começa a querer afirmar-se e a querer existir por si mesma. É o início da fase do não, tão temida pelos pais, e que termina, na melhor das hipóteses, por volta dos três ou quatro anos. Nesta fase, trata-se de uma oposição sistemática, porém necessária à estruturação e organização de sua personalidade.

Desde esta idade e até aos dois ou três anos, a noção do proibido não faz ainda muito sentido para a criança. É preciso repetir-lhe muitas vezes o que ela pode ou não pode fazer, explicando-lhe, em poucas palavras, a razão dessa proibição.

A partir dos três ou quatro anos, a criança passa, pouco a pouco, do "não" sistemático para o "não pensado”, onde afirma os seus gostos e escolhas, passando a compreender, cada vez melhor, as ordens dadas, começando a entender as noções de bem e de mal.

Na realidade, é a partir do momento em que percebe que o seu comportamento impulsivo, em vez de satisfação, traz censura por parte do mundo externo, que ela passa a dominar as acções meramente instintivas. Como, acima de tudo, a criança deseja o apoio e a aprovação dos adultos, e necessita imensamente deles, especialmente do pai e da mãe, começa a compreender que precisa controlar melhor os seus desejos e impulsos. Ao conformar-se gradualmente com as imposições do meio ambiente (educação), controlando ou repelindo os desejos que não podem ou não devem ser satisfeitos, a criança vai estruturando o seu EU. As crianças, ao contrário do que se pensa, para além de necessitarem, elas “gostam” de regras. As regras são estruturantes, ajudam-nas a organizarem-se e, o agir dentro de determinados limites, cuidadosamente estabelecidos, dá-lhes uma estrutura segura para lidar com situações novas e desconhecidas. É fundamental que os adultos sejam coerentes e consistente na forma como aplicam as regras e definem os limites do que a criança pode e não pode fazer pois, para os pequenos, os adultos são modelos a serem seguidos. É através do exemplo do adulto que a criança vai estruturando a sua própria personalidade. Uma criança que não aprende a ter limite acaba por crescer com um deficit na percepção do mundo à sua volta. As consequências passam por: • Desinteresse pelos estudos, • Falta de concentração, • Dificuldade em lidar com a frustração, • Falta de persistência, • Desrespeito pelo outro – por colegas, irmãos, familiares e pelas figuras de autoridade. Com frequência, essas crianças são confundidas com hiperactivas pois, de tanto poderem fazer tudo, de tanto “ampliarem” o seu espaço sem aprender a reconhecer o outro como ser humano, acabam por desenvolver características de irritabilidade, instabilidade emocional, redução da capacidade de concentração e atenção, fruto, como já atrás referi, da falta de limites e da incapacidade crescente em tolerar frustrações e contrariedades. Fátima Poucochinho Psicóloga Infanto juvenil Clínica ASAS, Portimão