Quanto da Verdade devemos contar aos nossos filhos?







Fátima Poucochinho



Educar não é efetivamente uma tarefa fácil…queremos dar o nosso melhor, fazer tudo da melhor maneira e, depois, acabamos por ficar meio perdidos, à procura de uma resposta certa, uma atitude perfeita que, afinal, não existe…





Cada criança é um caso, cada estrutura é uma estrutura e o modo como a educação é dada deve ter sempre em atenção isso. Não há modos de funcionamento ideais que sejam eficazes para todas as crianças…Há adaptações á realidade que cada criança tem e que, garantidamente, serão a melhor opção na educação e na postura a ter com ela.

O que dizer e o que não dizer é certamente uma das questões que mais “mexe” com os pais. Não querem mentir mas, também não querem dizer coisas que podem magoar a criança… A questão das verdades a dizer á criança são de facto uma questão que considero complexa…

Há correntes que defendem que o tamanho da verdade a dizer a cada criança depende da maturidade da mesma…Não estou completamente de acordo…Independentemente da sua maturidade, uma criança é sempre uma criança e, se amadureceu demais, é porque, já ai, alguma coisa pode não estar bem.

Na minha opinião, devemos olhar para a criança com um único padrão que é, meramente o facto de ela ser, exatamente, uma criança!

É claro que uma criança de 3 anos terá uma maturidade diferente de uma criança de 6 mas, independentemente disso, ambas são crianças e ambas precisam de verdades que lhes permitam crescer de forma emocionalmente saudável.

Na minha opinião, a verdade a dizer à criança depende sim daquilo que nós, enquanto pais, conhecemos da criança. Supostamente sabemos se são crianças mais sensíveis, mais despassaradas, mais ansiosas, mais reativas. Se temos de estabelecer um padrão para perceber o tamanho da verdade que devemos dizer a cada criança que seja a sua personalidade, a sua estrutura de funcionamento.

A minha “receita”?

Não tenho nenhuma! No entanto, acredito que o ideal é não mentir, mas também não contar tudo...Há coisas que não adiantam a criança ter conhecimento. Em vez de a ajudar vai prejudica-la…há coisas que precisa ser a criança a perceber por si, a seu tempo e ao seu ritmo.

As questões que implicam separação dos pais, divórcio são das mais complicadas nestas coisas da verdade…

Obviamente a criança precisa perceber que os pais se separaram mas, provavelmente não precisa saber o porque dessa separação. Esse não é um assunto dela, é um assunto de adultos! A criança apenas precisa saber que a mãe e o pai já não estavam felizes juntos e por isso se separaram mas que vão sempre ter uma coisa em comum que é a criança. Ela precisa saber que os pais se separam um do outro mas não se separaram dela. A criança precisa saber a verdade que a ela diz respeito, não a verdade que apenas diz respeito aos pais, a verdade dos “porquês” da separação.

O que acontece muitas vezes é que os pais, zangados um com o outro, acabam por fazer dos filhos seus confidentes, usando a desculpa de que a criança tem de saber a verdade.

Não, a criança não tem de saber toda a verdade. Acredito que nestas situações a criança tem apenas de saber a verdade dela, a verdade que nela vai ter impacto.

A criança precisa também, tem aliás direito, a fazer uma construção sua do pai e da mãe. Quando são ditas verdades “demais”, corremos o risco de estar a interferir nessa construção e isso não é saudável. Provavelmente, a seu tempo, a criança vai perceber essa verdade mas tem de ser uma perceção construída por ela e não fabricada com as “verdades” que lhe são verbalizadas.

Outro exemplo é a questão das crianças adotadas.

A verdade que estas crianças precisam saber é a de que, por algum motivo, os pais biológicos não puderam cuidar bem delas e por isso, para as proteger, optarem por permitir que outras pessoas pudessem cuidar delas. A verdade em relação aos porquês da mãe biológica não ter ficado com a criança não é algo que seja benéfico para a criança ouvir por isso, não mentido, há efetivamente coisas que podemos e devemos omitir.

Este é o tamanho da verdade que, na minha opinião, é benéfico para a criança. Um tamanho que abrange uma resposta às suas perguntas mas que não interfere com a imagem que a criança está a construir de si mesma e, das suas figuras de referência.

Nestas situações, não precisamos florear o real. Isso é mentir e não devemos mentir…

Devemos apenas dizer do real o que sabemos que naquele momento vai efetivamente ajudar a criança. Não temos de inventar um real cor-de-rosa…Mais cedo ou mais tarde a criança vai descobrir que não é assim e vai perder a confiança nos pais. O que devemos fazer é contar-lhe apenas o que ela precisa ouvir e isso tem muito a ver com a sensibilidade de cada pai e, principalmente, com a capacidade de descentrar-se de si mesmo e colocar-se no lugar da criança!

Surge ainda uma outra verdade com que os pais se deparam…as notícias, os acontecimentos no mundo…

As notícias que passam na TV são muitas vezes distorcidas ou…intensificadas. O próprio conceito de notícia é mesmo esse: o drama, a intensificação do drama!

É importante que as crianças saibam o que se passa no mundo mas, se calhar não através das imagens sensionalistas que passam na TV. As crianças devem saber que há guerra, que há pessoas que sofrem, que a natureza é muito forte e provoca alguma destruição, que a vida nem sempre é justa mas, ela precisa saber tudo isto tendo em a conta a pessoa que ela é. As notícias não têm em conta a sensibilidade de ninguém, logo, não acho que seja o melhor meio para a criança perceber o que se passa no mundo. Agora, é fundamental que, antes que alguém lhe fale na escola dos incêndios que destruíram muitas casas, por exemplo, elas já saibam a verdade que precisam saber sobre este assunto. Essa verdade é a de que temos de ter sempre cuidado para evitar no verão que à volta das casas exista folhagem seca porque, quando esses cuidados não são tidos, acontecem coisas menos boas.

Ou seja, devemos falar da verdade mas dando sempre a visão de que podemos prepara-nos para evitar situações mais complicadas e percebendo sempre que existem pessoas (os bombeiros) que dão sempre o seu melhor para ajudar nessas situações. A verdade que precisam saber é que essas situações existem mas que também existem meios para combatê-las. Elas não precisam saber das mortes dos 1001 animais e das 1001 pessoas…Podem saber que infelizmente houve animais e pessoas que morreram porque não conseguiram fugir mas não precisam que essa verdade seja contada com drama e com imagens chocantes que depois vão atormenta-las na hora de dormir.

Basicamente, a criança precisa saber que nós não controlamos o que acontece à nossa volta, mas podemos sempre tentar controlar a forma como lidamos com isso.

Nestas situações de catástrofe, este é o tamanho da verdade que acredito que devemos dizer aos nossos filhos. Uma verdade que diz que efetivamente algo menos bom aconteceu mas, que a vida continua e que podemos sempre escolher como reagimos a essa realidade, por muito má que ela seja.


Fátima Poucochinho

Psicóloga Infanto Juvenil

Clínica ASAS, Portimão