CRIANÇAS PERFEITAS, CORAÇÕES ANGUSTIADOS







Fátima Poucochinho



Como pais, enchemos-nos de orgulho quando os nossos filhos se destacam na escola, num desporto…






Vê-los felizes, valorizados e reforçados é o que mais queremos.

Para isso, queremos que se empenhem, se esforcem e, percebemos esse esforço e empenho através dos resultados maravilha que podem ou não aparecer...

Às vezes, no entanto, queremos tanto que eles alcancem os bons resultados que acabamos por estabelecer padrões demasiado elevados, levando a que o resultado seja, muitas vezes, o oposto daquele que pretendemos. E quanto mais esses resultados se distanciam do que imaginamos ser o adequado, mais exigentes nos tornamos e, quanto mais exigentes nos tornamos, mais ansiedade causamos na criança.

“Mas é o meu papel, enquanto pai/mãe, motivar o meu filho a querer sempre ir mais além, a destacar-se!”, poderão dizer alguns pais.

Pois é, e têm toda a razão!

É suposto ajudarmos os nossos filhos a perceberem que podem ir mais além, com esforço e com dedicação e, assim, alcançarem o sucesso. O problema, o grande problema é quando alcançar esse sucesso se torna compulsivo, se torna uma luta doentia.

E é nessa altura que é importante parar, parar antes que a busca pelo sucesso seja a responsável pela infelicidade e angústia. É que a partir do momento em que uma criança quer sempre superar-se, quer sempre mais (e é estimulada a isso pelos pais), ela acaba por nunca estar bem, nunca estar satisfeita consigo mesma e com as suas conquistas.

É que perfecionismo é muito diferente de motivação e empenho para dar o nosso melhor…

Uma criança perfecionista frustra-se com o resultado menos bom e martiriza-se a si mesma, zangando-se e olhando-se como alguém que não presta, que não vale.

Uma criança perfecionista necessita ter tudo controlado e, o resultado diferente daquele que idealizou é uma quebra de controlo. A criança tende a culpabilizar os outros ou alguma situação, para que a “culpa” não seja atribuída a si e, tende a revoltar-se consigo mesma e com o mundo.

Já uma criança empenhada para alcançar bons resultados, vai aprender com o resultado menos bom, tentando de todas as formas perceber o que provocou esse resultado. para que para a próxima não torne a acontecer.

O perfecionismo acaba também por interferir na socialização da criança pois, a sua necessidade desmedida de ser a melhor acaba por comprometer a forma como se relaciona com os colegas. Por norma e com alguma frequência, aponta as falhas dos outros e está constantemente a dar conselhos que não foram solicitados. A sua intenção é que o outro se sinta menos perfeito do que ela, que se coloca como a “sábia” que sabe dar conselhos. Esta é uma forma da criança perfecionista reforçar em si mesma a sua “superioridade”, fazendo com que os outros se sintam mal. Não é algo que a criança faça com maldade, ela simplesmente precisa fazê-lo…

E agora perguntam os pais: Ok…

Não podemos exigir perfeição mas também não podemos deixar que eles se acomodem…O que fazemos então?

Primeiro ponto: Mostre à criança que perfeição não existe Converse com a criança sobre os seus próprios erros. Mostre-lhe que errar é humano e que também os pais erram. Fale com ela sobre os seus erros e as lições que aprendeu com eles.

Segundo ponto: Todos temos de saber ganhar…e perder Jogue jogos com a criança mas não faça de propósito para que ela ganhe. Treine-a para as adversidades da vida em vez de coloca-la numa redoma onde ganha sempre

Terceiro ponto: Não deixe a criança desistir Para muitas crianças com padrões mais elevados, a pressão de manter um padrão de excelência é muito stressante. A criança sabe que esperam dela resultados excelentes e o medo de não os alcançar faz muitas vezes com que desista, com que se recuse a realizar a tarefa onde até ai tinha tido resultados muito bons. Acontece muitas vezes no desporto…Há crianças que são excelentes mas que, assim que ouvem falar em competição, dizem que querem desistir…Ou crianças que foram muito reforçadas num determinado desporto ou actividade e que, a dada altura, dizem que já não querem ir mais…

Quarto ponto: É mais importante manter o foco no processo do que no resultado final Para evitar que a criança desenvolva um perfecionismo obsessivo é importante dar mais valor ao empenho do que propriamente ao resultado. Se uma criança se esforçou bastante e mesmo assim teve um suficiente, o foco deve ser no seu investimento, mais do que no resultado final que obteve.

Quinto ponto: Ajude a criança a relaxar Muitas vezes as crianças perfecionistas são demasiado duras consigo mesmas. Ajude-as a encarar os erros de uma forma mais positiva. Ria com a criança. Conte-lhe histórias de outras pessoas que são boas e que falham também. Um bom exemplo é o Cristiano Ronaldo que é o melhor jogador do mundo mas que mesmo assim por vezes, falha remates. E continua, apesar disso, a ser o melhor do mundo.

Sexto ponto: As rotinas foram feitas para ser quebradas Quebre algumas rotinas de vez em quando Um perfecionista precisa controlar as coisas e, por isso precisa de rotinas., Quebre algumas rotinas para que a criança perceba que, mesmo quebrando a rotina, tudo pode correr bem à mesma…E até pode ser divertido! Ajude a criança a perceber que fazer sempre tudo da mesma forma acaba por ser um pouco “seca” e monótono. Deixa de haver lugar para as surpresas e, às vezes, há surpresas que são boas…!


Fátima Poucochinho

Psicóloga Infanto Juvenil

Clínica ASAS, Portimão